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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

- Além do que se vê -

Saint-Exupéry, Antoine de. O Pequeno Príncipe: com aquarelas do autor. 48 ed. Rio de Janeiro: Agir, 2002.

O autor do livro O Pequeno Príncipe, o francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) foi aviador e escritor. Como adorava estar no ar, Exupéry viajou por muitos lugares, conheceu diversas pessoas e culturas. Como registro dessas grandes aventuras, o autor escreveu o pequeno príncipe, em que pôde narrar suas experiências e fazer com que as pessoas refletissem sobre suas vivências e principalmente sobre como se relacionavam com outras pessoas. Considerando que em toda obra há uma parte do autor, no pequeno príncipe podemos perceber explicitamente o quanto essa afirmação se comprova.
Levando em conta que o autor do livro seja o próprio narrador da história - personagem: aviador – durante a leitura pôde-se perceber a importância da narrativa para a simbolização da existência. Segundo Benjamin apud Dutra (2002), a narrativa cria sentidos, implica na descrição de experiências, sendo que essa reconstrução da fala produz significados. Rodrigues (2006) alega que o discurso está na palavra, no silêncio, na escuta, na leitura, no sonho, ou seja, em todas as formas de expressão do ser-no-mundo. Ainda pontua que no discurso é que o ser se revela e a hermenêutica possibilita esse desvelamento, a partir da compreensão e interpretação. Por isso, quando o autor descreve os fenômenos presentes na história, deixando a mercê do leitor interpretá-los, possivelmente sua intenção seria causar uma afetação possibilitando ao leitor uma profunda reflexão. Isso é para aqueles que compreendem o livro, pois a compreensão constitui o modo de abertura do ser-no-mundo para o fenômeno, diferente de se entender algo, ou seja, o fato, o palavrório. Segundo Heidegger apud Rodrigues (2006) “a compreensão é existencial (...), a compreensibilidade do ser-no-mundo, trabalhada por uma disposição, se pronuncia como discurso.” (p. 59)
A partir de uma análise crítica do livro sob o viés da fenomenologia, uma das grandes abordagens da psicologia, as relações entre o pequeno príncipe e os personagens serão abordadas cronologicamente, sendo destacados conceitos importantes para a psicologia fenomenológica como a narrativa, cuidado, compreensão, tempo, ser-para-a-morte, abertura, disposição afetiva e angústia.
No início da história o aviador (narrador) relata sobre um episódio da sua infância. Ao desenhar um elefante sendo digerido por uma jibóia pergunta aos adultos o que eles acham que seja a gravura, e todos alegam ser um chapéu. Ele não entendia porque as pessoas grandes não compreendiam nada sozinhas. Por que elas viviam de forma tão superficial? Por que as pessoas grandes valorizam somente as grandes coisas? Isso acontece porque diante da gama de experiências que elas possuem tudo que vêem remetem à algo que já conhecem, não tentam refletir sobre aquilo que é “novo” e não se abrem para as novas possibilidades. Inclusive, assim como a fenomenologia, a gestalt alega que a percepção é construída a partir da experiência.
Ou seja, para aqueles estudantes e profissionais psicólogos, toda demanda que receberem, seja um livro, uma música ou um problema de um cliente, ambos têm que olhar para as coisas para além do que se vê, não podem se ater aos fatos, e sim tentar compreender com o outro o fenômeno de sua experiência, é se abrir para a possibilidade de se deixar afetar. É preciso se atentar para o que se revela (numa narrativa) e o que se oculta, nem tudo que é dito se mostra como realmente é, e todo psicólogo deve se atentar para essa dialética do existir. Segundo Heidegger apud Giordani (1976) através da disposição afetiva vejo não somente o que eu sou mas, o que devo ser; sendo a obrigação vital de realizar-me. Meu ser me é dado como um dever-ser (p. 80). Na composição da banda Los Hermanos essa idéia é explicitada: “É preciso força pra sonhar e perceber, que a estrada vai além do que se vê (...) E que é difícil ser feliz (...) é o amor que ninguém mais vê”.
O aviador ao encontrar o pequeno principe relembra o tempo em que foi desencorajado pelos adultos, e a partir da relação que estabelece com seu novo amigo, volta a desenhar gravuras para ele e para contar sua própria história. Esse fenômeno é a prova de que nunca é tarde para se realizar nossos sonhos. Com o pequeno príncipe ele passa a conhecer as diversas formas de ser-no-mundo, que cada existência tem um sentido, que os questionamentos são importantes (o príncipe nunca renunciva uma pergunta) para se refletir sobre essa existência e que é preciso estar próximo do que/quem se ama, mas sem se apegar. O envolvimento é preciso para se experienciar com o outro e o afastamento é necessário para que ambos aprendam dialogicamente, reflitam, para que não se confundam com a experiencia do outro e que não sejam dependentes.
Esta relação dialógica deve ser trabalhada entre o psicólogo e o cliente, pois nesse envolvimento é necessário que o psicológo tenha uma “reserva”, onde possa garantir certa particularidade, que o encontro não o desestruture, para isso, suas experências devem ser “bem resolvidas”. Essa relação está muito ligada com a definição da redução fenomenológica. Heidegger considera a redução como uma tentativa de se retornar à experiência vivida através de uma profunda reflexão sobre o fenômeno. Para se envolver existencialmente o Ser deve compreender o fenômeno sem julgamentos prévios, ou seja, deve se aproximar do fenômeno e se afastar de suas experiências já vividas, em função da autenticidade. O pequeno príncipe fazia essa redução fenomenológica, apresentava a condição de abertura e procurava compreender os fenômenos sem julgamentos prévios, ao chegar a cada planeta, ele o explorava para depois fazer suas inferências, sempre observando o quê e como as pessoas estavam vivendo o aqui-agora¬ e não porque elas viviam daquela maneira.
Quando o princepezinho conta a história dos baobás, diz que toda planta ruim deve ser tirada imediatamente. Pode-se fazer aqui uma analogia quanto às angustias que chegam até a clínica. As pessoas querem se desfazer de suas angústias o mais rápido possível, e o objetivo do psicólogo é fazer com que essa angústia seja trabalhada. Heidegger dá uma nova conotação para a angústia, alegando que “O ser-para-a-morte é essencialmente angústia”, este ser quando olha para a possibilidade do não-ser, quando este ser se angustia, ele existe autenticamente, pois diante da possibilidade de não existir, o homem valoriza mais a vida, que implica em reconhecer sua própria finitude. Quem não se angustia vive na inautenticidade. Isso também se aplica ao que acontece durante o encontro entre o príncipe e o bêbado, o qual fugia de suas tristezas e angústias bebendo, esse era seu modo de fugir da realidade. O acendedor também possuía uma existência inautêntica, ele seguia um regulamento (acender o lampião) sem ao menos saber o sentido daquilo, o fazia apenas por mando de alguém.
O que mais admirava o pequeno príncipe em seu planeta era a possibilidade de constantemente estar vendo o pôr-do-sol e cuidar de sua rosa. Diante de coisas tão simples, o principezinho construía sua existência por estar aberto e se deixar afetar. A afetação está vinculada com existência autêntica, a partir da vivência dos fenômenos. Trazendo para a Psicologia, a afetação está relacionada tanto com o encontro entre cliente e psicólogo quanto com a compreensão e a realização de uma intervenção mais eficiente e eficaz. A relação que o pequeno príncipe tinha com sua rosa era ímpar, ele se deu conta disso em seu encontro com o geógrafo, quando descobriu que as flores são efêmeras. A transitoriedade da rosa (assim como de todos nós seres-no-mundo) traz uma profunda reflexão sobre a impossibilidade das possibilidades que é morte, Heidegger vem falar que “viver para a morte” constitui o sentido autêntico da existência, como se do nada o homem pudesse tirar forças para viver o tudo, que é a vida, cheia de abertura e possibilidades.
O cuidado com a rosa, em regá-la, protegê-la, faz alusão a forma como o cuidado deve estar inserido na prática psicológica. Neste envolvimento deve haver a sensibilidade para a afetação, para a escuta clínica (ouvir com compreensão), o cuidado e o vínculo. O cuidado é uma prática que vai além da técnica, apesar da técnica ser importante, ela não é mais que a relação, através do encontro, onde se pode acolher esse outro (o cliente). O vínculo é importante para se estabelecer a confiança do cliente no psicólogo.
Na relação entre o pequeno príncipe e o rei e o príncipe e o vaidoso, pode-se perceber que eles priorizavam as grandes coisas, á estética, o sentido da existência não se dava na relação com o outro, o súdito e o admirador eram significantes apenas no momento em que valorizava a eles próprios, aquilo que se quantificava (relação superficial, de aparências). Algo que dentro da psicologia fenomenológica não é o principal, os números, eram reverenciados pelo contador. Ele dava demasiada importância ao ter, ao possuir as estrelas, simplesmente pelo fato de saber que tudo aquilo era dele, e não lhe era significante a beleza das estrelas, o ser não era valorizado. Os detalhes, para o pequeno príncipe, eram a coisa mais importante, ele chorava ao ver que para alguém, a possibilidade de um dia perder a sua tão querida flor seria algo sem importância.
Essa é forma que a psicologia fenomenológica trabalha, quando preconiza a qualidade e não a quantidade. Segundo Morais (2004), a pesquisa qualitativa privilegia a experiência subjetiva do ser humano, sua vivência, considerando que esta experiência só pode ser “acessada” e descrita pelo sujeito. Diferente da pesquisa quantitativa que afasta o sujeito de suas experiências a partir de um pensamento meditante e calculante.
O encontro com a raposa faz-se muito importante para a revelação do ser-aí, no momento em que a raposa diz ser responsabilidade do príncipe cativá-la. E essa é a mensagem que fica em relação à amizade, por exemplo, o cativar está relacionado com o cuidado, com o vínculo e com a afetação. Muitas vezes a linguagem pode não dar conta da capacidade de entendimento e compreensão dos fenômenos, é preciso estar atento a todas as expressões emitidas pelo sujeito numa tentativa de olhá-lo em sua completude. Para Heidegger no momento em que a raposa ao falar com o pequeno príncipe do seu “segredo”, a partir desse diálogo ele passa a fazer uso da repetição do que tinha sido dito pela raposa para não correr o risco de esquecer-se da lição dada pela amiga. Esse repetir para lembrar também é mencionado por Heidegger quando o mesmo diz que a linguagem é um modo de ser, a fala cria a existência e esta, através das palavras, tem acesso privilegiado ao ser. Assim, o ser cria seu momento de reflexão e repetição para manter a substância do que foi dito, preservada. Essa é um tipo de devolução que o psicólogo deve fazer ao seu cliente, repetir a pergunta devolvendo-a fará com o sujeito passe a refletir mais acerca do que foi dito, e pesar se realmente é isso que o afeta ou o angustia.
O tempo direcionado para o cuidado é algo que faz parte de uma relação autêntica, enquanto o vendedor vendia pílulas para saciar a sede e fazer com que as pessoas economizassem 53 segundos por semana, o pequeno príncipe apreciava a idéia de durante esse tempo “livre” ir a procura de um poço para saciar sua sede. Mearleau-Ponty em seu livro Fenomelogia da Percepção (1999) traz uma concepção de Claudel sobre o tempo: o tempo é o sentido da vida (sentido: como se fala do sentido de um corrégo, do sentido de uma frase, do sentido do olfato) p.549.
Portanto, o livro O Pequeno Príncipe se mostra como uma obra ideal para se analisar e estudar a fenomenologia, assim como abre grandes possibilidades para a reflexão sobre a prática profissional da psicologia. Levando em consideração que Heidegger alega que o homem ao mesmo tempo que se revela, se oculta, no decorrer de uma narrativa provavelmente haverá lacunas, e esta análise possui ainda muitas lacunas. Através do contato com o livro, pôde-se fazer uma análise da narrativa a partir das experiencias tidas até o dado momento, supostamente após uma releitura, considerando que adquiriremos novas experiências, essa análise poderá ser bem diferente. Segundo Morais (2004), nossa formação é repleta de lacunas e mesmo que fosse completa não daria conta dessa prática, dada a sua originalidade e imprevisibilidade (...). Por fim, após analisar o livro com música, teóricos e filósofos, vale parafrasear um grande escritor, Paulo Coelho, que deixou explicito a importancia do além do que se vê quando diz: As coisas mais simples são as mais extraordinárias e só os sábios conseguem vê-las.